Todo monstro deve ser mantido preso (no mínimo), dentro de seu labirinto ...
Pois, o grande risco, sempre, foi e será reconhecer nele, sua humanidade .
A dele, a nossa, a minha, a tua que lê esta proposta enigma .
Um monstro é um ser que muda constantemente de lugar. E de identidade.
Ele será sempre o outro, perante o seu olhar? Ou você mesmo, perante o olhar alheio?
Ou no fundo ele é somente o nosso último e mais temido espelho?
Clarice Lispector, nos adverte "eu me achava de amor inocente, apenas por não ter cometido os meus crimes..."
Será que ela intuiu o monstro, ou, o vislumbrou rapidamente, dentro do lugar mais escuro? O seu próprio ser?
Na lupa da história ele já foi mulher, gay, rebelde, comunista, negro, judeu, messias, estrangeiro, louco.
Pois, como sabemos todo monstro é um mutante de mil faces, simultaneamente, fascinante e horrendo, de preferência, jamais humano .
E se de fato ele cometer um crime, pequeno ou hediondo, as fúrias aconselharam velozes e implacáveis, não só exilá-lo, como também aniquilá-lo, pois, em sua queda visível escreveu o seu nome gigante e definitivo "não é um de nós".
O Coro Novo, unindo seu núcleo de veteranos e iniciantes, e o elenco completo do Projeto Palavra Viva, se propõe a liberta-lo durante uma hora apenas. Para que o espetáculo seja de fato espetacular e luminoso. E como grita Antônio Cícero possamos juntos "planta-lo no centro do palácio, na capital do reino, no umbigo da ilha."
Para onde todos os caminhos se convirjam .
É isto. É só .
Um convite humilde aos corajosos e aos medrosos .
Venham conosco devorar um pouco de poesia, um pouco de música, um pouco de teatro e, talvez, um pouco de lembrança .
Neste lugar monstruoso, onde temos todos, a própria cabeça pendurada numa lança.
A arte aberta como uma ferida, pulsante e dolorida, no meio de nossas vidas.